sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Engatinhar na vida I

Caros colegas recém-nascidos,

E como é que tudo começou?
Ora, como todos os outros bebés, crias de mamíferos e afins. Na babigota (leia-se barriga) da mamã.
Não é para zurzir dos excelsos biberões, mas nada como um cordão umbilical a alimentar constantemente. Nem comento o frio horripilante que apanho cá fora, comparado com a temperatura ambiente onde boiava antigamente. Ou seja, uma resposta meritória a como tudo começou seria – Muito bem! – Porque haveria de alguém se lembrar em alterar a situação? Qual a necessidade em provocar-me este transtorno todo?
Ora, então sigam o meu raciocínio:
1- Primeiro dia, ou minuto se preferirem, uma luz desmesurada e perturbante – “Oláááá, que vem a ser isto e quem são vocês…” – Pimba! Palmada no rabiosque!
2- Primeira hora, e todas as horas, dias, semanas e meses seguintes, fome! Uma coisa que não vos passa pela cabeça. Tenho fome, quero comer! Então, pede. Como? Chora! Ah, e atenção! Se não aprendemos depressa que há choro diferente para cada coisa só tens direito a mama depois de averiguarem fralda, sono, frio e calor, e não necessariamente por esta ordem.
3- Já que tocamos no assunto “fralda”. Onde ficou a acepção do conceito “ao naturel”. Aceito os trapitos de algodão, gorro incluído (que consegui livrar-me dele bem depressinha), que moderaram o meu “bater de dentes” (tem graça porque ainda não os tenho) e o cobertor que me aconchegou. Mas fralda?! Será que é do vosso conhecimento que, depois do desafogar dos meus distintos intestinos, do aliviar da minha ilustre bexiga, a trampa se mantém lá toda?! Eu sei. Chora. – “Ah, a menina deve querer papar…”. Haja paciência!
4- “Picas” é o nome que os grandes lhes dão. Prego! Broca! Perfuradora! E não é uma ou duas vezes, são dezenas! No teste do pezinho, haja sola para tanta picada e aperto. E como se não fosse suficiente, o SNS (sistema nacional de saúde) brinda-te com injecções todos os meses!
Relembrar-me e resumir os meus primeiros e curtos momentos deixa-me transtornada. Se não se importam continuarei outro dia. Tenho fome, estou com frio, tenho a fralda suja e com um sono que ninguém me atura. Agora, juntar quatro tons de choro num único som vejam lá as tarefas hercúleas a que me obrigam! Estou tramada, é melhor ficar só pelo berrar mesmo.

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